par Flores Nunes
Na cidade em que eu habito enquanto durmo
Surgiu à minha frente um animal
Não sei dizer que bicho era, apenas que era grande
Sua face não se via, pois estava inteiramente coberta,
Assim como todo o resto de seu corpo,
De longos pelos lisos e sedosos branco-perolados.
Embora estivesse bem perto de meus olhos,
Entre ele e eu havia uma ponte
Por um instante, me detive olhando aquele ser
Até que decidi caminhar em sua direção
Pois eu tinha a involuntária intenção
De lhe entregar uma mensagem que
Apesar de eu desconhecer seu conteúdo
Sabia que estava guardada dentro de mim
E no momento certo eu seria capaz de a transmitir.
Ao dar o primeiro passo para entrar na ponte
O vistoso animal despareceu de minha vista
Como se de repente tivesse se desintegrado,
Sem sair de seu lugar, aos meus olhos se ocultou.
Nesse instante, detive meus pés, interrompi minha jornada.
Eu estava dormindo por minha própria escolha,
Mas precisava reencontrar o animal
Perguntei-me se ele havia se escondido de propósito
Ou se fora eclipsado de minha presença pela ação
De alguma força que meu sonho desconhecia.
Entretanto, o tempo todo
Tive a certeza de que mesmo inexistindo
Em algum lugar o animal haveria de estar,
Talvez em uma região mais além das fronteiras do meu sonho,
Território que eu me recuso a visitar.
Acredito que se para lá eu fosse, poderia encontrar
Não só aquele bicho, mas também outros seres e objetos
Que um dia pertenceram a mim, mas dos quais,
À ausência, já havia me habituado.
Foi então que para mim, tudo ficou claro:
Eu só iria reencontrar o animal se eu despertasse
Entretanto, não desejava abandonar minha cidade
E ainda hoje eu nela vivo
Vagando por ruas vivas e carregando um mistério
Que mesmo à minha revelia vez por outra eu expilo
E uma vez fora de mim, ele parte em busca
Daquele animal que um dia se esvaiu de minha vista
E permanece oculto esperando o dia
Em que minha mensagem o encontre e o permita
Talvez
Reaparecer
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Collage du haut, Collage 39. Ci-dessous, Collage 91, Collage 62 ©Flores Nunes

